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Através dos olhos de uma girafa

Foto do escritor: Gustavo Marcelo
Gustavo Marcelo
27 de out.
4 min de leitura

Atualizado: há 4 horas


Tenho o costume de pensar no meu pensamento de quando era pequeno — de quando era inefável. Possuía uma mente séria e o peso das coisas era inegociável.

Viver é diminuir-se.


No instante em que somos suficientes, o mundo diz que não somos para que, inconscientes das borboletas, busquemos algo. É como destruir um casulo para bordá-lo de novo.


Não pensávamos o pensamento do outro. Levávamos flores no regaço e, mesmo que não as víssemos, elas exalavam perfume.


A culpa não era crônica.


Tudo era novo.


Tudo ainda é novo; ou você sabe qual a cor de uma placa tectônica?


Criavam a falta — como a busca incessante por demasiado prazer, possuir, razão e poder — para que, no fim, fôssemos dignos de morrer.


Estrelas vistas da Terra: éramos pequenos demais para percebermos nossas próprias grandezas.


Se eu visse o mundo através de mim de quando era inefável, teria mais cuidado com o lugar onde meus olhos pisam. A beleza vã — que confunde os olhos sábios — não me confundiria. Minha calma estaria sã da natureza.


Se eu visse o mundo através de mim, estaria acordado de chuva, como quando fui ao zoológico pela primeira vez.


Era um dia nublado, melancólico, que causava alento, ao menos para mim — a névoa fazia com que eu me abraçasse da pele para dentro.


Duma espécie de varanda no zoológico, feito o som de kalimba, a chuva tocava o telhado de barro vermelho-escuro desbotado. Outras crianças murmuravam que não podiam ver os animais nos primeiros segundos da excursão; todavia, eu não: eu sussurrava o cheiro de nuvem e a suavidade me era amanhecida. Ansiava ardentemente ver os animais; no entanto, naquele instante, eu só queria saber de ser névoa.


De tudo o que vi, lembro-me mais claramente de cobras em terrários minúsculos cheios de galhos — fingiam dormir para não ver tanta gente; vi jacarés profundos em marés — inclinavam os olhos molhados de timidez para fora da poça; vi um leão num terrário pouco maior do que o das cobras — nos fitava com uma visão magra de dúvida; era quase um cão caramelo de rua.


Eu não esperava isso. Nos desenhos de zoológicos que coloríamos, até as grades sorriam; entretanto, ali, de vez em quando, até o céu chorava.


Inefável queria ser lobo-guará para comer flores; onça-pintada para ter galáxias; mico-leão-dourado para ser de sol tatuado. No entanto, não queria abrigar meus olhos feito cobras, jacarés, leões, nem mesmo girafas — principalmente girafas.


No fim da excursão, fizemos um pequeno mico-leão-dourado de papelão. Podíamos moldá-lo à nossa maneira. Criar algo é pertencê-lo — inevitavelmente. É estar à beira de amar — sempre.


A vida, a essa altura, era sem sentido; todavia, eu a ia sentindo.


Meu, meu, meu... — era o que atravessava minha caixa torácica.


Dirigíamo-nos ao ônibus no instante em que o céu se comoveu; no entanto, antes de encarar esse vale de lágrimas, com os olhos molhados de timidez, indaguei a um menino da minha turma:


— Cadê o seu mico-leão dourado? Ele derreteu com a chuva?


Pelo papel crepom que usamos, os dedos do menino estavam rosados.


— Sim — era verdade de alguma forma, senti.


O que mais importa: atravessar a chuva e correr o risco de perdê-lo para sempre? Ou deixá-lo vivo, sabendo que a mim ele nunca diria “te preciso”?


Que forma estranha de amar! Vi que não devia levá-lo para casa; todavia, por que só eu devia deixar minha criação? — pesava. É o que está certo — pesava. Não precisa fazer sentido, só sentindo!


Perguntei-me com o olhar magro de dúvida: por que minha mãe não me emprestou um guarda-chuva?


Olhos atentos. Giro meu pescoço como uma coruja. Olhos atentos. Minha mochila não tem espaço. Olhos atentos. Percebo um murinho distante, a poucos passos. Olhos desatentos.

Discretamente, vou até o muro e coloco minha criação lá e, delicado feito um camaleão, me direciono à professora sem que ela me desamanheça.


Olho repetidas vezes para trás enquanto lentamente perco meu pequeno mico de vista. A princípio, esse ato me deixou com um buraco na minha mente; entretanto, logo os passarinhos além da chuva — cantando — começaram a jogar sementes.


Mais adiante, percebi algumas girafas. Elas tinham uma espécie de pasto envolto em pequenas cercas onde só podiam andar para a frente. Se andamos sempre em frente pelo mundo, damos a volta nele e paramos no mesmo lugar. As girafas não podiam nem chegar ao mesmo lugar sem ter que andar para trás.


No ônibus, eu fingia dormir para não ver tanta gente. Indaguei-me, no coração, se as girafas eram felizes assim.


As cobras, os jacarés e o leão não conseguiam, mas, se elas possuíam os olhos de ver o outro lado, por qual razão não fugiam para ele?


Ver é o princípio da pureza, todavia:


Vemos as eras sendo consumidas lentamente pelas guerras;


Vemos de perto as pessoas passarem fome de água, comida, agasalho e afeto;


Vemos derreter o que amamos na tentativa egoísta de os possuir;


Vemos homens perigosos sendo eleitos só para não deixarmos nossa razão ir;


Vemos as espécies sendo extintas e os elementos sendo feridos;


Vemos a casa bagunçada; a raposa sem toca; o homem sem sobriedade e a idosa sem juízo;


Vemos nós mesmos, por pensarmos o pensamento do outro, sendo consumidos...


Se as girafas estavam cientes de possuírem olhos de ver o outro lado, por qual razão não fugiam para ele?


Porque elas queriam ser

dignas de morrer.



Aos Corsários do Sentir

Cervom

 
 
 

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